Engenheiro, comandante dos Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha, presidente do Serviço Nacional de Bombeiros, autarca e dirigente associativo, José António da Piedade Laranjeira morreu aos 96 anos. Parte uma das figuras mais marcantes da vida cívica albergariense das últimas décadas.
Há vidas que dificilmente cabem numa enumeração de cargos, funções ou condecorações. A de José António da Piedade Laranjeira é uma delas.
Albergaria-a-Velha despede-se de um homem que dedicou grande parte dos seus 96 anos ao serviço dos outros e que deixou a sua marca em áreas tão diferentes como os bombeiros, a indústria, o poder local, o associativismo e a floresta.
A sua morte deixa de luto o concelho e, de forma muito particular, todos aqueles que com ele trabalharam, conviveram ou partilharam causas ao longo de várias décadas.
Engenheiro mecânico de formação, José António Laranjeira pertenceu a uma geração profundamente ligada ao desenvolvimento económico e social de Albergaria-a-Velha. A sua vida profissional cruzou-se com uma das empresas mais emblemáticas da história industrial do concelho: as Fábricas Metalúrgicas Alba.
Ingressou na empresa como estagiário, em 1957, e, depois de concluir a formação académica, regressou à Alba, onde desenvolveu uma carreira de mais de duas décadas e assumiu responsabilidades na área da fundição.
Mas foi muito para além da atividade profissional que José António Laranjeira construiu o legado pelo qual será recordado.
Uma vida ligada aos bombeiros
Poucas instituições representam tão bem a dimensão de serviço público do seu percurso como os Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha.
José António Laranjeira assumiu o comando da corporação em 2 de abril de 1969, mantendo-se nessas funções até 13 de dezembro de 1974.
A saída do comando, porém, esteve longe de representar o fim da sua ligação à causa dos bombeiros.
Essa dedicação acabaria por projetá-lo para responsabilidades nacionais, chegando à presidência do Serviço Nacional de Bombeiros, organismo que liderou durante nove anos.
Foram anos em que o nome de Albergaria-a-Velha esteve associado, através de José António Laranjeira, às estruturas nacionais responsáveis pela organização e valorização dos bombeiros portugueses.
A ligação à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha continuaria durante décadas. Entre 1997 e 2022, presidiu à Assembleia-Geral da instituição, completando um quarto de século à frente daquele órgão social.
O seu contributo foi reconhecido com diversas distinções. Recebeu o Crachá de Ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses e, em janeiro de 1990, foi condecorado pelo então Presidente da República, Mário Soares, com a Ordem do Mérito.
Décadas depois, em maio de 2025, seria novamente homenageado, recebendo o Colar de Mérito pelo percurso desenvolvido ao serviço dos bombeiros.
O serviço público também passou pela política autárquica
A participação cívica de José António Laranjeira teve igualmente expressão na vida autárquica de Albergaria-a-Velha.
Foi vereador da Câmara Municipal e presidiu à Assembleia Municipal em diferentes períodos, nomeadamente nos mandatos de 1982-1986, 1997-2002 e 2002-2005.
Mais do que uma passagem circunstancial pela política local, tratou-se de outra vertente de uma vida marcada pela participação nas instituições da comunidade.
Em 2016, o Município de Albergaria-a-Velha reconheceu formalmente esse percurso, atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, uma das mais importantes distinções municipais.
A homenagem realizada ainda em vida assume agora um significado especial.
“Em 2016, tive a honra de lhe poder demonstrar, em vida, a minha admiração e gratidão, ao distingui-lo, em nome do Município de Albergaria-a-Velha, com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Ouro, em reconhecimento do valor de todo o seu trabalho ao longo da sua vida”, recorda uma das mensagens de despedida entretanto tornadas públicas.
A defesa da floresta foi outra das suas causas
José António Laranjeira deixou também uma marca importante no movimento associativo ligado à floresta.
Esteve profundamente ligado à Associação Florestal do Baixo Vouga, chegando a presidir à instituição e participando no trabalho desenvolvido em torno da organização e valorização da floresta da região.
Defendeu publicamente matérias como a prevenção dos incêndios, a gestão sustentável da floresta, o cadastro, a organização dos proprietários e a necessidade de conferir maior sustentabilidade económica à produção florestal.
Também dessa etapa da sua vida chegam agora algumas das palavras mais emocionadas de despedida.
“Hoje, o meu coração fica mais pobre, mas eternamente grato. Partiu um ser humano extraordinário, o Eng. José António Laranjeira”, começa uma homenagem de alguém que com ele partilhou a fundação e a direção da Associação Florestal do Baixo Vouga.
“Uma pessoa genuinamente boa, rara, especial e única, que deixou uma marca profunda em todos os que tiveram o privilégio de a conhecer.”
São palavras que revelam uma dimensão que os cargos e as condecorações não conseguem traduzir.
“Caminhámos juntos na fundação e na direção da Associação Florestal do Baixo Vouga. Foram anos de trabalho, amizade, partilha e aprendizagem.”
E, perante a morte do amigo, fica uma certeza particularmente significativa:
“Hoje, no meio da dor, resta-me uma enorme paz: não ficou nada por dizer.”
Um nome que atravessa a história recente de Albergaria-a-Velha
A história de José António Laranjeira confunde-se, em muitos momentos, com a própria evolução de Albergaria-a-Velha ao longo da segunda metade do século XX e das primeiras décadas deste século.
Passou pela histórica Alba e pelo período de afirmação industrial do concelho. Esteve nos Bombeiros quando o voluntariado assumia um papel absolutamente determinante na proteção das populações. Chegou às estruturas nacionais do setor. Participou no poder local. Trabalhou no movimento associativo e dedicou atenção à defesa e organização da floresta.
Fê-lo ao longo de décadas, atravessando gerações.
É essa transversalidade que torna particularmente difícil resumir o seu percurso apenas através dos cargos que desempenhou.
Porque, para aqueles que o conheceram, a memória que permanece parece ir muito além do currículo.
“Há pessoas que partem, mas nunca desaparecem. Ficam nas nossas memórias, nos nossos valores e, sobretudo, no nosso coração.”
Última despedida esta sexta-feira
Albergaria-a-Velha presta esta sexta-feira, 4 de setembro, a última homenagem a José António da Piedade Laranjeira.
O velório decorre entre as 11h30 e as 14h30 no quartel operacional dos Bombeiros Voluntários de Albergaria-a-Velha, um local carregado de simbolismo perante a longa ligação que manteve à instituição.
O funeral segue posteriormente para a Igreja Matriz de Albergaria-a-Velha, onde a cerimónia religiosa está marcada para as 16h00.
Após as cerimónias religiosas, o cortejo fúnebre segue para o Cemitério de Frossos.
Aos 96 anos, desaparece um dos nomes que ajudaram a escrever várias páginas da história contemporânea de Albergaria-a-Velha.
Ficam as instituições que serviu, as causas que defendeu, as distinções que recebeu e, sobretudo, a memória deixada junto daqueles que com ele se cruzaram.
Talvez por isso, entre todas as palavras escritas nestas horas de despedida, sejam as mais simples que melhor resumem o sentimento de quem perdeu um amigo:
“Descansa em paz, meu querido amigo. Obrigado por tudo.”
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