Barragens de Ribeiradio e Ermida são distintas e podem descarregar de forma independente


As barragens de Ribeiradio e Ermida, implantadas no rio Vouga, são infraestruturas distintas, com albufeiras, órgãos de descarga e regras de exploração próprias. Apesar de integrarem o mesmo aproveitamento hidroelétrico, funcionam de forma autónoma, o que significa que uma pode efetuar descargas sem que a outra o faça, e vice-versa. Para compreender o impacto destas operações no Vouga e, por consequência, na bacia do Águeda, importa esclarecer os tipos de descarga existentes e as condições em que são acionadas.

Três formas de libertar água

Em termos técnicos, as descargas numa barragem podem ocorrer por turbinagem, por descarregador de cheias ou por descarga de fundo. Cada mecanismo responde a objetivos diferentes — produção de energia, segurança da obra e gestão hidrológica.

1) Turbinagem (operação normal)
É a forma mais frequente de “descarga”. A água atravessa as turbinas para produção de energia elétrica e é restituída ao rio a jusante.

  • Em Ribeiradio, a turbinagem corresponde ao principal modo de exploração.
  • Em Ermida, a central também turbina caudais, mas com um papel adicional de regularização do escoamento recebido de montante.
    A turbinagem não implica necessariamente níveis elevados nas albufeiras e pode ocorrer sem qualquer descarga visível pelos descarregadores.

2) Descarregador de cheias (segurança hidráulica)
Entra em funcionamento quando o nível da albufeira atinge cotas que exigem escoamento adicional para garantir a segurança da barragem.

  • Ribeiradio dispõe de um descarregador controlado por comportas, o que permite regular a quantidade de água libertada.
  • Ermida tem um descarregador não controlado (soleira fixa): quando a água atinge determinada cota, verte automaticamente, sem necessidade de manobra.
    Por esta razão, Ribeiradio pode descarregar por decisão operacional e Ermida apenas descarregar quando o nível o impõe, o que explica porque as duas não descarregam obrigatoriamente ao mesmo tempo.

3) Descarga de fundo (gestão fina e situações específicas)
Ambas as barragens dispõem de descargas de fundo, usadas para:

  • Gestão de caudais mínimos e ecológicos;
  • Operações de manutenção;
  • Situações excecionais de segurança.
    São descargas controladas, independentes da turbinagem e do descarregador de cheias.

Autonomia operacional: o ponto-chave

A distinção técnica entre as duas obras traduz-se numa realidade simples:

  • Ribeiradio pode efetuar descargas (por turbinagem, descarregador ou fundo) sem que Ermida descarregue;
  • Ermida pode descarregar — por exemplo, pelo seu descarregador automático — mesmo que Ribeiradio não esteja a descarregar nesse momento;
  • Cada barragem reage às condições da sua própria albufeira, e não de forma automática à operação da outra.

O papel da Ermida como reguladora

Apesar da autonomia, a barragem da Ermida foi concebida para modular os caudais libertados a jusante, atenuando variações bruscas resultantes da exploração energética a montante. Este papel é particularmente relevante na estabilidade dos níveis do rio Vouga, reduzindo oscilações rápidas que poderiam afetar margens, ecossistemas e usos ribeirinhos.

Efeitos no Vouga e na bacia do Águeda

A gestão de caudais em Ribeiradio e Ermida influencia o rio Vouga e, indiretamente, a bacia do Águeda, afluente importante do sistema:

  • Em períodos de caudais elevados, as descargas podem elevar os níveis do Vouga, com reflexos na drenagem dos afluentes;
  • Em situações de coincidência de picos (chuva intensa no Águeda e aumento de caudal no Vouga), pode verificar-se efeito de remanso na confluência;
  • A existência de duas barragens com operações independentes permite, contudo, maior flexibilidade de gestão, ajustando descargas às condições reais do sistema.

Em síntese

  • Ribeiradio e Ermida são barragens distintas;
  • Cada uma tem órgãos de descarga próprios e regras de acionamento diferentes;
  • As descargas são independentes, não ocorrendo obrigatoriamente em simultâneo;
  • O sistema procura conciliar segurança, produção de energia e proteção ambiental, com impactos diretos no Vouga e efeitos indiretos na bacia do Águeda.

Este esclarecimento técnico ajuda a interpretar corretamente situações de subida de caudais e a evitar a perceção de que existe uma única “descarga conjunta”, quando, na realidade, as decisões e os mecanismos são separados em cada barragem.

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